Uma das razões determinantes para as crises (não só ambiental, mas ética, de falta de princípios) por que hoje passa a humanidade é a fragmentação de todos os elementos essenciais à vida, física e espiritual, e, ao mesmo tempo, da pouca dedicação em reintegrá-los. No afã de buscar conhecer os detalhes, as mínimas coisas, ou, in extremis, o tudo sobre o nada, nós os fragmentamos mais e mais, até além do nível subatômico. O universo é fragmentado em bilhões de nebulosas.

Cada uma, por sua vez, é fragmentada em bilhões de estrelas, e sobre elas buscamos saber a sua exata composição. O planeta é dividido em países ricos e pobres, desenvolvidos e em desenvolvimento, exploradores e explorados, todos competindo entre si. O mesmo acontece com as diversas instâncias de unidades políticas territoriais, até chegar à família e ao próprio homem. Este é dissecado por inúmeros especialistas, cada um, normalmente, buscando ver pouco além daquelas questões não diretamente associadas à sua própria especialidade. Nas universidades, o conhecimento é também fragmentado entre os inúmeros departamentos, cada um tratando, quase que exclusivamente, de suas próprias especificidades, com poucas trocas entre si e quase nenhuma cooperação interdepartamental, e até mesmo intradepartamental. Os alunos são educados, têm o seu conhecimento conformado dentro desse mesmo modelo, somando disciplinas em seus currículos, em um ambiente onde raramente se observam uma integração de esforços, um caráter interdisciplinar ou uma ambição transdisciplinar.

Uma vez profissionais, irão reproduzir esse modelo em suas empresas, nos órgãos públicos ou privados onde irão trabalhar. Aos arquitetos, engenheiros, gestores públicos, enfim, a todos e a cada um dos atores da vida pergunta-se: que planeta, que país, que cidade, que bairro, que edificação, que indivíduos irão gerar como resultado dessa formação e, consequentemente, dessa visão de mundo? Certamente, as respostas não estão nem no infinitamente grande, nem no infinitamente pequeno, isoladamente.

Mas, talvez, estejam em ambos, simultaneamente, assim como nos processos que os unem e na visão sistêmica de suas partes e funções. Talvez, após um longo período de análise, seja o momento de o homem, novamente, aprofundar a busca da síntese.

Por outro lado, vivemos em um planeta essencialmente competitivo, onde a cooperação é a exceção. Alguns poderão alegar que isso não é um privilégio da humanidade, da espécie humana, já que todas as espécies vivas se encontram em permanente competição: as plantas competindo por água, energia, nutrientes; os animais procedendo de forma análoga. No entanto, toda essa competição está inserida e é orientada por uma grande harmonia planetária ou cósmica, não autodestrutiva. Não será também o momento de buscarmos uma cooperação construtiva, em torno de princípios éticos, e assim definirmos uma nova estética para a nossa pequena, privilegiada, incrivelmente bela e única (até onde possamos hoje adivinhar) astronave Terra?

Humildemente, temos a pretensão da busca de uma alternativa, unindo-nos a muitos outros profissionais e pensadores, infelizmente ainda uma minoria, buscando conduzir, segundo essa linha, as nossas ações no campo da arquitetura e da construção. Dividindo, sim, mas para unir novamente. Na própria divisão, sendo cautelosos, para não perder de vista o todo. Desse modo, buscamos orientar as nossas construções e projetos, alinhando-os de acordo com os quatro elementos, que tanta sabedoria ancestral e até transcendental encerram. Mas, ao mesmo tempo, buscamos, por exemplo, a unidade na arquitetura, encerrando dentro de si, como veículo para a sua expressão, todas as artes. Ao buscarmos contemplar o homem como fim último de nossas ações, buscamos também identificá-lo no todo de suas necessidades: do coração e da mente, do corpo e dos sentidos, ousando, também, interpretar e buscar uma resposta às suas necessidades espirituais.

Reconhecemos que o momento é de ansiedade. Tanto quanto se saiba, convivemos, ao mesmo tempo, com o apogeu do conhecimento, mas irresponsável e perigosamente nos aproximando do ocaso da atual humanidade. O planeta se aproxima do limite de sua capacidade de suporte, com a população humana crescendo, e a das demais espécies diminuindo, quase que na mesma razão. Os sistemas de suporte de vida – ar, água, solo e energia – estão gravemente ameaçados, colocando em risco a oportunidade a nossos descendentes de desfrutar das maravilhas da vida e do planeta. Contaminamos o ar, a água, a terra (e com isso os alimentos) que nos são essenciais, e destruímos a barreira protetora da atmosfera, que nos protegia do fogo do sol. Felizmente, convivemos com um momento único da história humana no que concerne à potencial acessibilidade à informação (embora muito continue a nos ser sonegado, por interesses vários). Esperamos poder ser suficientemente sábios, no tempo que nos parece restar, para fazer com que tal conhecimento sensibilize os nossos corações, para que tenhamos alguma chance de oportunizar aos nossos descendentes um veículo (um corpo sadio) para continuar a desvendar as maravilhas do universo e da vida.

Miguel Aloysio Sattler – Miguel Aloysio Sattler possui graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1974) e em Agronomia, pela mesma universidade em 1978. Obteve o seu doutorado pela University of Sheffield (1987) e pós-doutorado pela University of Liverpool, ambos em Ciências Ambientais Ligadas à Edificação.

Agradecemos ao professor Sattler por autorizar a publicação do seu valioso trabalho, estamos de portas e braços abertos para divulgar tudo que possa contribuir para um mundo mais justo e humano. A foto foi tirada na  FEC-UNICAMP pela aluna Natália Ranga.

O livro poderá ser baixado neste site:

http://www.habitare.org.br/pdf/publicacoes/arquivos/colecao9/livro_completo.pdf

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